Por Daniel Fonseca

Há uma tempestade silenciosa alterando as projeções financeiras da indústria global de alimentos e bebidas. Não é uma nova lei tributária, nem uma crise na cadeia de suprimentos. É uma caneta. Ou melhor, as canetas emagrecedoras à base de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.

Com o boom desses tratamentos, bancos de investimento como o Morgan Stanley já projetaram cenários onde o consumo geral de calorias pode cair de forma estrutural até 2035. Redes de fast-food, supermercados e a indústria de ultraprocessados já estão sentindo — ou se preparando para sentir — o impacto de milhões de consumidores que, subitamente, perderam o apetite voraz.

Diante de uma disrupção desse tamanho, o que um empresário do setor de alimentação faz? Senta e reclama da indústria farmacêutica? Não. Ele aprende a fazer curvas.

Charles Darwin eternizou a máxima: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. No mundo dos negócios, a força bruta (ter muito capital ou tradição) raramente vence a flexibilidade.

A prova de que a biologia se aplica ao business está acontecendo agora, nos restaurantes brasileiros. Uma reportagem recente do jornal O Estado de S. Paulo ilustrou perfeitamente essa capacidade de reinvenção. Estabelecimentos estão reformulando ativamente seus menus para atrair e fidelizar clientes que utilizam esses medicamentos.

O grande destaque vai para casos como o de um restaurante de culinária japonesa no Rio de Janeiro que viralizou ao lançar o “Rodízio Mounjaro”. O slogan é genial em sua simplicidade: “O seu rodízio favorito, agora em versão reduzida. Sabor gigante, do tamanho ideal da sua fome”. Outro exemplo é o Relicário Bistrô, que também passou a considerar a redução do apetite para ajustar seus pratos e porções.

O que esses empreendedores entenderam de forma brilhante?

  1. O produto mudou: Eles deixaram de vender “quantidade” para vender “inclusão social e experiência”. O cliente sem fome ainda quer sair com os amigos, ele só não quer pagar por um rodízio tradicional que não vai consumir.
  2. A margem se reconfigura: Como apontam especialistas na própria matéria, oferecer porções reduzidas com diminuição proporcional de preço é uma adaptação válida e deveria ser universal. Menos volume de comida no prato significa menos desperdício e um custo de mercadoria vendida (CMV) mais baixo, preservando a margem se precificado corretamente.
  3. Fim do atrito: A iniciativa surgiu da observação real do comportamento do cliente — donos de restaurante perceberam pessoas ao seu redor usando a medicação e criaram versões menores dos pratos mais vendidos.

A grande lição aqui ultrapassa a culinária japonesa ou os laboratórios farmacêuticos. Trata-se da agilidade de leitura de cenário. O mercado é uma estrada cheia de obstáculos imprevisíveis. Quem dirige com os braços rígidos, batendo de frente com a nova realidade, quebra. Quem sabe “fazer a curva” encontra um novo oceano azul logo à frente.

A sua empresa não precisa ser a maior do mercado, mas o seu radar precisa estar ligado.

E você? Já identificou qual é a “caneta emagrecedora” que está prestes a mudar o apetite do seu cliente hoje?